2.1_ os dez livros De architectura
2.2_ a datação do tratado De Architectura
2.3_ Vitrúvio, Augusto e a grandeza de Roma

1. O TRATADO DE ARCHITECTURA DE VITRÚVIO

O tratado De Architectura libri decem, escrito por Vitrúvio, é uma abrangente reflexão feita no século I a.C. sobre a disciplina da arquitetura e procura, através do seu estudo, requalificar a prática profissional em voga na Roma do Imperador César Augusto. Dividido em dez volumes, o autor descreve o oficio do arquiteto, condenando práticas clientelistas e equívocos sobre a arte edificatória. O objetivo primeiro do tratado vitruviano é registrar as matérias essenciais de cada gênero de edificação, detalhando questões de base sobre as diferentes tipologias e exemplificando-as.

De forma sumária, os dez livros contemplam os seguintes conteúdos:

Livro 1: Sobre os conhecimentos necessários à formação do arquiteto.
Livro 2: Sobre os materiais e a arte da construção
Livros 3 e 4: Sobre os edifícios religiosos.
Livro 5: Sobre os edifícios públicos.
Livro 6: Sobre os edifícios privados.
Livro 7:  Sobre os acabamentos
Livro 8: Sobre hidráulica e distribuição da água
Livro 9: Sobre gnomônica nas edificações.
Livro 10: sobre mecânica e os princípios das máquinas

Livro 1

No Primeiro Livro, Vitrúvio define a arquitetura e os conhecimentos necessários à formação do arquiteto. Para o autor, a “ciência do arquiteto” compreende tanto a prática quanto a teoria, sendo que a primeira requer a experiência e a segunda se faz necessária para explicar as coisas relativas ao engenho e a racionalidade. É repleta de várias disciplinas e saberes tais como geometria, filosofia e música, desta forma, o arquiteto deve atingir a técnica guiada por artis studium, ingenium e sollertia. “Nesse canteiro, a sollertia adquire posto superlativo, pois não se desliga do talento natural (ingenium), fortalecido pelo exercício e aliado ao estudo das artes, constituindo-se como uma “competência” na qual a ciência, a formação doutrinal, o domínio dos preceitos consagrados dirige plenamente a habilidade prática” (D’Agostino).
Vitrúvio, além de descrever os saberes imprescindíveis ao arquiteto, ressalta ao longo do texto as qualidades e virtudes necessárias ao exercício profissional. Liberto de arrogância e avareza, características que ofuscariam os verdadeiros valores da arte, o arquiteto deve sempre buscar pela máxima qualidade e perfeição da obra, uma vez que este sim seria o seu maior bem: a ciência dos preceitos. Neste contexto, a prática de clientelismo, o oportunismo profissional e os valores ligados ao acúmulo ilimitado de fortuna são duramente criticados pelo autor. O arquiteto deve zelar pela dignidade e boa fama, uma e outra inseparáveis da competência na arte, a qual não se esgota na habilidade técnica mas requer o domínio da scientia, o aprendizado de muitas disciplinas e varias erudições.
 Ainda no primeiro livro, Vitruvio expõe as seis partes da arquitetura: ordinatio, dispositio, eurythmia, symmetria, decor e distributio. Os termos ordinatio e dispositio estão bastante ligados quanto aos seus significados. Vitrúvio define o primeiro como a adequação dos elementos da obra à justa medida, tendo como finalidade obter proporções e simetria. Dispositio entende-se como obtenção de uma obra elegante considerando a qualidade, o que, atualmente, é interpretado como correta colocação das partes tendo em conta às dimensões reais da obra a ser edificada. Symmetria entende-se como harmonia entre as diversas partes de uma obra, calculada através de uma unidade eleita como módulo, abrangendo a forma total do edifício. Muito próximo ao significado do termo anterior, eurythmia, de acordo com D´Agostino, “exacerba a distância que as especificações quantitativas ou abstratas da ordem harmônica podem guardar da consecução da beleza, sempre a se consumar no domínio qualitativo do visível”. O decor compreende a utilização das regras rígidas, ou seja a escolha adequada das colunas, da ornamentação, dos locais salubres e convenientes e  da orientação solar. Distributio, por fim, seria a conveniente distribuição do terreno e dos recursos, sendo de responsabilidade do arquiteto administrar as despesas e os gastos da obra

Livro 2

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Na abertura do segundo livro, Vitrúvio narra a história protagonizada por Dinócrates, que dotado de grandes idéias e solércia, tenta cativar e persuadir Alexandre Magno para a realização de seu projeto de transformar o Monte Athos em um colosso que portava na mão uma cidade. A partir da descrição deste fato, o tratadista mostra a importância do apoio do Princeps nas realizações artísticas e arquitetônicas, de tal forma que este para consumar seus objetivos políticos utiliza o artista e o arquiteto como instrumentos do bom governo. Neste livro, também são discutidos os materiais e as técnica de construção (aedificatio).

Livros 3 e 4

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O estudo dos templos é reservado aos livros terceiro e quarto, os mais importantes e como que “luzes” para toda a tratativa vitruviana.  A compositio dessa tipologia de edificação é estabelecida pelos gêneros in antis, prostilo, anfiprostilo, períptero, pesudodíptero, díptero e hípetro que podem ser concebidos admitindo as comodulações picnostilo, sistilo, diastilo, aerostilo, eustilo etc. Cabe, desta forma, ao arquiteto, a partir das descrições narradas dos preceitos, buscar a razão e excelência da arquitetura em sua atividade. Tal prática se daria ao observar qual tipologia possui mais qualidades em relação às demais para a obra em que se pensa destinar. Para justificar a deliberação e o acerto da escolha, cuidadosamente fundamentada, o arquiteto necessita esquadrinhar o campo de possibilidades de ação, de vantagens e desvantagens com a adoção de outras soluções.
A partir da associação, definida no primeiro livro, entre a excelência da arte e os princípios de symmetria e decor, ou seja a consumação dos atributos de harmonia e beleza consoante as regras de proporção e a conveniência dos demais elementos, considerados justos, Vitrúvio, no proêmio ao quarto livro, descreve os três gêneros de construção legados pela Grécia e seus vínculos com a poesia clássica. Em síntese, o autor detalha a origem, as proporções e os aspectos singulares das colunas dórica, jônica e coríntia. Sobre a primeira, descreve a singeleza das formas da coluna em comparação com a beleza nua do corpo masculino, ambas a demonstrar firmeza e vigor, razão por que convinha associá-la aos templos de Minerva, Marte ou Hércules. A segunda faz referência à “delicadeza e esbelteza feminina” e por isso convinha aplicá-la a templos de Diana ou Dionísio. Já a ultima remete à “delicadeza virginal das donzelas” de tal forma que templos ornados de flores e volutas deveriam ser destinados a Vênus, Flora ou às Ninfas.
Contudo, o nosso arquiteto, vai além da ordenação triádica helenística e inclui um quarto gênero: o toscano, ao associar o templo etrusco com o dos gregos. A bem ver, Vitrúvio, na adição da coluna toscana, não necessariamente se afasta do “espírito clássico”, antes aproxima a cultura itálica ao sistema das três colunações gregas. Contudo, como tem sido bem advertido por vários e respeitáveis estudiosos do mundo antigo, tal inclusão estava prejudicada não só pela ausência de entablamento completo (arquitrave, friso e cornija) na ordem toscana (que não possuía friso) mas também pela discordância com o critério poético musical grego, o quarto gênero é notavelmente incompatível com o cânone helênico das colunas dórica, jônica e Coríntia.

Livro 5

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No quinto livro, Vitrúvio volta-se aos edifícios públicos, sucessivos, em ordem hierárquica, aos templos, tratados nos livros terceiro e quarto. Nele o arquiteto também retoma argumentos sobre a importância de um tratado de arquitetura. Tratados sobre artes, vale dizer, de natureza prática, deviam ter em conta a ciência e o engenho, visando sempre a autoridade dos exempla. Por isso, diferentemente dos textos de história e filosofia, eles precisavam utilizar vocábulos muitos específicos da arte, o que trazia “obscuridade à linguagem, por não serem de uso comum” (Justino Maciel). Daí a necessidade de uma prévia explicação, de forma sintética e prática, de vários termos aos leitores, a comprometer a elegância da escrita. Em suma, os edifícios públicos são descritos nesse capitulo, dando-se grande destaque ao foro, à basílica e ao teatro.

Livro 6

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No sexto livro, cujo maior foco é a arquitetura privada, Vitrúvio introduz importantes conceitos sobre beleza, ornamento e conveniência, comprometendo o estudo da symmetria  com o respeito às prescrições do decoro (decor). O autor elabora, a partir das questões da conveniência ou do decoro, tipologias privadas associadas aos diferentes níveis sociais: aqueles de “fortuna modesta” não necessitam de grandes e luxuosos vestíbulos, escritórios ou átrios; os que estão envolvidos com produtos do campo não necessitam de espaços luxuosos, mas de estabelecimentos adequados à conservação; aqueles cujo ofício é cobrar impostos públicos ou emprestar dinheiro devem edificar ambientes refinados e protegidos; o grupo formado por advogados e retores convém construir amplos e elegantes espaços para bem receber a clientela; já aqueles que se dedicam a magistratura devem construir “vestíbulos reais”, átrios e bosques com muitos passeios “dignos à sua majestade”, devem também ter boas bibliotecas, porém menos luxuosas do que as dos edifícios públicos.  

Livro 7

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O livro sétimo é dedicado aos escritos daqueles que procuraram transmitir variados pensamentos para futuras gerações, chamados, por Vitrúvio, de os maiores. M. Justino Maciel evidencia a importância de este livro servir também como um registro dos nomes de escritores ant igos sobre a arte edificatória cujos importantes trabalhos com o tempo desapareceram.
O conteúdo do livro versa sobre acabamentos, ornatos e gêneros de pinturas a serem empregados nos diferentes edifícios.

Livro 8

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Questões de hidráulica e distribuição da água são as principais temáticas abordadas no livro oitavo. Partindo das idéias de que Tales de Mileto considerava a água Arché de todas as coisas, ou seja a maior fonte d e vida, Vitrúvio descreve engenharias para a distribuição de água urbana.

Livro 9

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No inicio do livro nono, Vitruvio honra os sábios e defende que “deveriam ser levados ao triunfo e com direito a assento entre os deuses”. Ele compara os estudiosos com os atletas dos antigos gregos. Para o arquiteto escritores, filósofos deveriam ser recompensados até mais que os atletas, pois seus feitos hão de beneficia também futuras gerações. Ao final Vitruvio discute questões da gnomônica nas edificações.

Livro 10

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Enfim, o último e mais extenso livro de Vitrúvio discorre sobre a participação do arquiteto em todas as etapas de construção das obras, sendo o responsável pelo cumprimento dos orçamentos e devendo conhecer os recursos técnicos (máquinas) para a melhor condução os trabalhos. Ele, ao longo do texto explica detalhadamente sobre equipamentos, transporte de materiais etc.