Arquitetura, Tecnologia e Meio Construído

Objetivos:

A disciplina propõe estudar experimentalmente os processos do projeto de arquitetura em geral e do fazer artístico por extensão Compõe-se, portanto, de duas atividades principais: uma teórica que consiste no inventário de reflexões registradas sobre a criação artística e, sempre que possível, seu rebatimento sobre as obras concretas que compõem o acervo das obras de arte (patrimônio artístico e tecnológico).

Justificativa:

A criação humana sempre maravilhou os homens. Por “criação”, entende-se maneiras novas de fazer coisas, que, visivelmente se diferenciam das maneiras já consagradas pela tradição. Esse maravilhamento se traduziu, no passado, pela atribuição a seres extra-humanos para certas descobertas ou “invenções” que escapavam à compreensão de seu nascimento: o uso do fogo foi atribuído a um semi-deus, Prometeu, que o roubou da morada dos deuses para dá-lo aos humanos; a agricultura foi uma dádiva da deusa Minerva, entre os romanos. Mesmo nossos índios também concebiam a origem de certas atividades como dádivas de forças “extraterrenas”. Entretanto, com o aparecimento das cidades-estado gregas e a conseqüente discussão atormentada sobre o destino de seus habitantes, desenvolveu-se, pela primeira vez na história, o conhecimento científico, isto é, o discurso baseado nas evidências internas ao próprio discurso, e não, em autoridades externas. Surgiu assim, pela primeira vez, o compreensão da atividade criadora, como obra humana. Mas, devido talvez, às condições sociais da época (escravismo), essa compreensão reduziu-se às artes da palavra: arte poética e arte retórica. Reflexões sobre pintura e escultura só foram registradas esporadicamente, na forma de comentários marginais a algum pintor ou escultor excepcional. O único livro sobre arquitetura e urbanismo do mundo clássico que nos chegou foi o tratado do arquiteto Marcus Vitruvius Pollio (Marcos Vitrúvio Polião) (século I AC). O Tratado “Edifícios” de Procópio (século VI DC) sugere uma postura descritiva, antes catálogo de edifícios com relações sumárias quanto ao caráter das obras, do que o trabalho sistemático do arquiteto romano. Foi com a clara distinção, reconhecida na Itália, principalmente em Florença, entre um projeto e sua execução como os fatos destacados (Brunelleschi) na construção da cúpula de santa Maria Del Fiore, que se desenvolveu uma reflexão sistemática sobre as artes plásticas, pintura, escultura e arquitetura (Alberti, Ghiberti, Filarete, Francesco di Giorgio, Piero della Francesca, Leonardo) desde 1436. Caracterizaram-se então dois atos destacados: o projeto e sua execução. E a atividade artística, enquanto fenômeno social passou a caracterizar-se como “manufatura”, sendo os colaboradores do responsável pela “oficina” (local do ofício), cada vez mais especialistas em certas partes da obra, ficando a concepção geral para o “chefe da oficina”. Hoje, com a transferência quase integral das atividades rotineiras para máquinas, com a complexidade tecnológica da produção, exige-se uma reflexão mais rigorosa sobre a atividade criadora, e sua execução. Também os depoimentos de artistas, reflexões e teorizações multiplicaram-se, obrigando a discussão e organização dessa rica literatura e sua contrapartida na atividade produtiva internacional. A disciplina pretende analisar esse trabalho de reflexão sobre o fazer artístico, reconhecido como necessário para o direcionamento correto do projeto das coisas, dos edifícios, das cidades e do ambiente. Mas, com a ampliação do seu alcance, reconheceu-se que atividades especializadas, que no passado só interessavam ao Urbanismo (como saneamento básico, física, astronomia) registradas no livro de Vitrúvio, passariam a fazer parte também das preocupações de todos os artistas. Como acentuou Brecht, o artista moderno não pode mais estar alheio ao desenvolvimento cientifico.

Conteúdo:

• Constará de preleções dos professores responsáveis e convidados, nas quais serão apresentadas as experiências pessoais, ordenadas ao longo do tempo de atividade dos mesmos. • Seminários em que alunos, ou grupos de alunos, apresentarão trajetórias de profissionais, de livre escolha, nas quais serão destacadas as características de sua obra, sua origem, suas “influências”, seus desdobramentos, suas contribuições. Será dada preferência a profissionais atuais e vivendo em nosso meio, pela garantia de acesso aos documentos. • Resenhas de textos de diversos autores sobre o fazer artístico. • Os alunos apresentarão, ao final da disciplina, um “portfolio” comentado de seus trabalhos, também organizado ao longo do tempo, com a discriminação, quando possível, da contribuição dos colaboradores. Por exemplo, se o “portfolio” referir-se a edifícios deverão ser relacionados os colaboradores do projeto de edifício, técnicos da construção, etc. • Os alunos deverão, desde o início das aulas, entregar uma pasta identificada com nome e ano em que cursou a disciplina, situação funcional, na qual serão colecionados: o plano da pesquisa em curso na pós-graduação ou o plano pretendido (alunos especiais), anotações sobre os seminários, fichamento dos textos (obrigatórios e redigidos em língua corrente) e eventuais textos dos alunos.

Forma de Avaliação:

Observação:

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