Metrópole e Vanguardas Artísticas

Objetivos:

Estudar como, a partir do século XVIII constitue-se acerca da grande cidade capital — mais tarde, a metrópole —, a imagem que a associa ao cosmopolitismo, a cerebrinidade e à indiferença; estudar o peculiar modo de vida que nessas cidades se desenvolve e como filósofos, literatos e estudiosos das sociedades e das personalidades o tematizam e, finalmente, discutir como artistas das vanguardas positivas entrevêem nessas metrópoles e em seus costumes um viver abstraio convertido em forma, pois, assinalam, lá germina o temperamento matemático vindouro, é o lugar de onde emergirá o novo STIJL (Mondrian).

Justificativa:

A historiografia apologética do chamado Movimento Moderno o apresenta, em geral, como resultado necessário da industrialização, dos novos usos, técnicas e demandas sociais (Zevi, Benévolo e outros) e, assim, buscam no século XIX suas origens enquanto atribuem ao moderno os qualificativos racional e funcional. No entanto, é no século XVIII que, embora se resguardem as preceptivas nas artes, são postulados as principais questões que transitam nos programas das vanguardas positivas: a prevalência da sóbria utilidade sobre o enlevante desfrute na arte e, portanto, seu desiderato social; o valor gnosiológico e propedêutico atribuído à formação artística; o remonte desejado à origem designada para por ela prover a restituição regenerada dos valores; a reiteração na concepção de uma invariável natureza humana como fundamento e legitimidade para projetada construção do Novo Mundo (Neue l/l/e/í); a noção do progresso do conhecimento como o agente da perfectibilídade individual e social; a generalização da aplicabilidade da ciência exata, caucionada pela experimentação e, correlatamente, o desabono da validade operativa do que seja exterior à positividade: místicas e metafísica. Como os doutrinários da ilustração, os teóricos das correntes construtivas do século XX, pretendendo a integral legibilidade das coisas e do mundo, projetam, para a arte e a ciência, a clareza de uma língua bem feita (Condillac). A disciplina METRÓPOLE E VANGUARDAS ARTÍSTICAS enquanto busca nos temas iluministas às questões que certas vanguardas pretenderam levar a cabo procurará mostrar como as imagens que sobre a metrópole se conjecturaram, informam os projetos modernos de reinstituição estética e de ortogenia social. Assim, reavaliando criticamente os fundamentos do moderno, pretende instrumentalizar os estudantes da Arquitetura e de sua história, bem como aos interessados nas artes em geral, para uma melhor apreensão das questões que ainda permeiam a produção e a reflexão contemporâneas da arte, da arquitetura.

Conteúdo:

1 . O URBANO E O RURAL – A CAPITAL E A PROVÍNCIA. Histórico da polaridade entre cidade e campo: o artifício e o bucolismo. O programa político e urbanístico da Roma Trímphans. Â consolidação das capitais absolutistas. As academias e as Beaux-arts. A oposição de capital e província. O local, o regional e o cosmopolita. 2. AS CAPITAIS. A ordenação dos conhecimentos nas Luzes. A interação de razão, imaginação e sentimento. As reações anti-barrocas. O programa arquitetônico e urbanístico ilustrado. 3. A METRÓPOLE. A metrópole do século XIX. A Revolução: “a Razão habita a cidade”. A multidão e a turba. A grande cidade: sedução, sedição. A formação de novos usos, hábitos e gestos. O artifício, a cerebrinidade e a dissimulação. O espaço e o tempo homogéneos. Personagens, modos, modas, estímulos… 4. A LÍRICA MODERNA Paixões e perversões na literatura do século XVIII. Capital e província em Balzac, Stendhal e Flaubert: ouro e prazer. As nostalgias românticas e a estetização da vida. Baudelaire: o choc na metrópole. Os tropos e correspondências simbolistas. Decadentismo e arte pela arte. As narrativas do período precedente à 1a Guerra: Mann, Proust e Musil. A poesia engajada (Maiakóvski) e a elegia (Rilke). 5. TELEOLOGIA DO NOVO MUNDO O resgate da génese e a regeneração da sociedade. Política e ciência nas Luzes. A racionalização da sociedade. O Novo Mundo (Neue Welt). A positividade do saber como antídoto à angústia e ao tédio. A “ideologia do plano”. A constância das funções e a perenidade na forma. O contemporâneo a atemporal. 6. O PROGRAMA CONSTRUTIVO As vanguardas negativas: DADA. A vontade de construção nos anos 20 do século XX. O – saber positivo e a formatividade (Gestaltung). A análise da ciência e a síntese do design. A máquina como paradigma. Eugenia social: sociedade administrada. O programa para o futuro. Arte abstrata. O fim da vanguarda. 7. CERTAS LUZES O gosto e as preceptivas no século XVIII. Os territórios próprios da Razão e da Sensibilidade. A imitação e a bela natureza. As teorias da arquitetura: Laugier e os lodolianos. A cabana primeva: a origem engendra o futuro. Os arquitetos revolucionários. Os temas iluministas e as vanguardas. 8. A GRANDE CIDADE As reformas urbanas no século XIX. O estranhamento e a alienação. O comportamento metropolitano e a atitude blasée. O formalismo. Desumanização da arte. O individual e o universal. A cerebrinidade e a abstração. 9. USOS DA RAZÃO Vanguardas soviéticas e fervor revolucionário. A luta no front das artes: anunciar e enunciar o Novo. Institutos de cultura e condensadores sociais. Racionalistas versus construtivistas. Erradição do antigo, abolição da família, células de habitação e hegemonia do Plano na União Soviética. A federação das artes e a extinção da Vanguarda. 10. RAZÃO E ANGÚSTIA A experiência do tédio. Angústia e nada (Heidegger). O saber como queda e redenção. O trabalho do negativo.

Forma de Avaliação:

Observação:

A avaliação será feita através de seminários sobre assuntos ou textos relacionados com a temática da disciplina e também através de um ensaio apresentado ao final do curso no qual se desenvolvam questões que, abrangidas nas exposições, seminários e discussões havidos, sejam pertinentes aos projetos de dissertação ou de tese dos alunos.

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