Paisagens Contemporâneas: Contracultura e Resistência

Objetivos:

A disciplina propõe a trabalhar criticamente um material temático recortado a partir de movimentos artísticos, culturais e de ativismo de inspiração libertária, a partir do marco do final da Segunda guerra Mundial, (1.) analisando seus processos criativos e a relação arte-vida cotidiana a partir da experiência vivenciada até sua constituição como produtos, (2.) estudando poéticas colaborativas de resistência cultural e transformação de comportamentos como construção de autonomia política e cognitiva em ação, e seu diálogo conflitante na disputa ideológica, comunicativa, econômica pelo e no espaço público. Em decorrência, espera-se que o processo de aprendizagem contribua (1.) para a investigação crítica e criativa das próprias percepções e valores pré-concebidos em relação à paisagem, às sensibilidades e estratégias cognitivas e de ação que assim se mobilizam, e (2.) para estimular o confronto do ambiente acadêmico com formas de valoração e organização externas a esse ambiente, esperando gerar uma tensão crítica que contribua para discutir o papel da Universidade, do conhecimento narrativo e da sensibilidade artística.

Justificativa:

Os marcos emblemáticos da cultura contemporânea, e da contracultura, expressos em movimentos artísticos e coletivos como os beats, situacionistas, fluxus, movimento hippie, movimentos contra guerras e outros tantos, alimentaram e alimentaram-se de formas de ativismo e ação no espaço urbano, a partir de uma reproposição do comportamento, dos afetos, da sexualidade, da ação política, das formas de organização. Seu processo de difusão enquanto referencial crítico e criativo não tem seu potencial esgotado, mesmo quando seus limites sejam decretados, revelando um forte apelo para as construções subsequentes. Os Fóruns Sociais, coletivos de arte e formas de ativismo alternativas, o rap, o grafite, o picho, o hip hop, grupos de cultura negra e outras formas de grande potência nas camadas mais jovens da população periférica, procuraram ou procuram se opor a processos extremamente violentos da sociedade globalizada, com impacto nas formas de comportamento e comunicação, na mobilidade, na sociabilidade, na percepção e fruição da paisagem, nas apropriações simbólicas da natureza e representações do urbano. Ao mesmo tempo, formas de expressão coletiva e de arte pública ganham atenção introduzindo elaborados significados no espaço mais central das cidades e do meio artístico, em compasso com formas mais convencionais de exposição na esteira aberta pelas vanguardas nas instituições e galerias, bem como da arquitetura pública e corporativa constituindo discursos e fatos simbólicos no urbano, procurando apropriá-lo para seus projetos comunicativos e para as disputas econômicas que se desenham no espaço. Transitoriedade, conservadorismo e cooptação econômica se entrelaçam nas possibilidades contemporâneas com as estratégias de resistência com as quais estão em conflito. As perspectivas críticas e de flexibilização do comportamento que os movimentos culturais do século passado mobilizaram, frequentemente resultaram incorporados pela indústria cultural ou se mostraram conciliadores de novas formas de consumo, uma vez esvaziados ou amainados em sua ação contestatória e criativa. As noções de fragmentação e maleabilidade dão suporte a formas de conformismo e consumo baseadas em códigos fortemente visuais e não raro narrativas esvaziadas de sentido que se estabelecem sobre, ou a partir, de sua incorporação. A discussão de uma cultura crítica precisa ser recolocada a partir dessas perspectivas abertas, agregando uma complexidade maior à experiência contemporânea, estranhíssimas à maior parte do “tecido” social a que se oferecem, desvelando ou mascarando a vivência da cidade. A ambivalência e flexibilização que se estabelece do comportamento e da produção vem a par tanto de uma normatização quanto de uma violência crescentes, que em nosso entender visa manter a coesão civilizatória em coexistência tensa. Nesse posicionamento, cumpre questionar inclusive essas assertivas e questionar que contribuições deram os movimentos contestatórios no campo da cultura, como foram apropriados e esvaziados, que herança e que novas formas assumem hoje. Que mecanismos se estabelecem na incorporação de valores de consumo e vivência e qual a perspectiva crítica na cultura contemporânea? Quais as brechas críticas e como distingui-las de mecanismos de controle aninhados em novas racionalidades que se sustentam em uma condição aleatória? Qual a contribuição ou potencialidade dos processos criativos artísticos, de vivência e discursivos, para um posicionamento e perspectiva de conhecimento da cultura na construção da paisagem? Que discussões sobre o corpo e a paisagem se buscam estabelecer, qual potencial simbólico abrigam, a que alternativas apontam? Cumpre ainda, por outro lado, questionar se o estudo acadêmico, como se institucionalizou e como vem sendo submetido a novas racionalidades produtivas, por si só, e por meio de sua produção fundamentalmente discursiva, pode ainda dar conta de tais questionamentos. Neste sentido, poderia contribuir para seu potencial crítico a abertura a outras formas de percepção, experiência e prática ou sua distância dos processos é inerente a sua constituição?

Conteúdo:

1. CULTURA, CONTRA-CULTURA E PAISAGEM CONTEMPORÂNEA. Discute-se a noção de Paisagem Partilhada, Arte e Cidade, a emergência da questão ambiental e das redes digitais no período estudado, transformações das representações da natureza e do urbano e noções como contra-cultura e vanguarda, arte e política, aprendizagem em ação. Discutem-se nexos entre sociedade do espetáculo, consumo e cultura e as manifestações artísticas e formas de ativismo colaborativo e em rede. 2. ARTE E VIDA COTIDIANA. Discute-se a relação entre arte, comportamento, vida cotidiana e sensibilidade na gênese de processos criativos e críticos a partir de estudos de agrupamentos de artistas e das trajetórias de alguns de seus integrantes e propõe estudos temáticos sobre movimentos e práticas sociais no período em questão. 3. ENTRE A RUA E O “CUBO BRANCO”. Discute-se a relação entre os processos criativos e existenciais, a institucionalização da arte e normatização da sensibilidade e da linguagem na sociedade contemporânea. Há ênfase nas poéticas colaborativas de resistência cultural, na disputa política pelo e no espaço público, e nas formas de deslocamento contemporâneas, na vivência e experimentação da paisagem como projeto estético e político. 4. PROCESSO CRIATIVO, AFETO, LIBERDADE E AUTONOMIA. Indaga a possibilidade de processos criativos e processos coletivos e de um papel crítico em relação à produção da paisagem e da arte contemporânea. Novas possibilidades e riscos em relação às sensibilidades e afetos, à produção artística, formas de produção de conhecimento, abertos pelas tecnologias de informação, comunicação, deslocamento e de manipulação da natureza, colocando em discussão o potencial contestatório ou integrativo das ações e dos esforços por sua cooptação e incorporação. A disciplina tem uma perspectiva fortemente experimental. Cada oferecimento da disciplina estabelece um recorte temático. Solicita-se, portanto, que se consulte o plano de ensino quando de seu oferecimento, para se conhecer o plano específico de aulas.

Forma de Avaliação:

Observação:

Será avaliada a participação efetiva nas aulas teóricas, seminários e atividades de campo e no compromisso com seus processos e desdobramentos, bem como a monografia final em sua revisão dos conceitos e na crítica das vivências e experimentações na paisagem e da qualidade dos deslocamentos e interações decorrentes. Será considerada também a organização, coerência e fundamentação do texto resultante e a contribuição do trabalho apresentado para as discussões propostas.

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