Preceptivas Artísticas

Objetivos:

Por não se tratar propriamente de um curso sobre os eventos que informam a história da arte, mas sobre o pensamento acerca da disciplinaridade da arte, este curso pretende — além de ilustrar o estudante sobre discussões pretéritas — também colocar algumas questões que permanecem atuais. Se o mérito da obra de arte não decorre apenas do arbítrio de opiniões mas se funda na avaliação sóbria de valores assentes (ou questionáveis), então é necessário apreciar a pertinência de tais valores que informam um conhecimento específico sobre esta disciplina. Assim, pretende-se estudar as preceptivas artísticas que, percutidas em tempos helênicos, reverberam até a atualidade.

Justificativa:

Deflagrada em tempos de helênica Antiguidade, a reflexão acerca de algum normológio da Arte (poética) é medra tardia, pois nem o fogo épico de Hesíodo e Homero, nem o lábaro lírico dos aedos órficos ou o flamante ardor dos enredos trágicos dela careceram. É certo que, embora de modo aforístico e episódico, inferências a respeito das téchnai tenham antecedido aos discursos de Aristóteles, será com os enunciados sobre Retórica e Arte Poética que se formulam e ordenam escrupulosamente preceitos pelos quais se referenciem a produção, a apreciação e a avaliação das obras que reivindicam para si a elevada condição de Arte. Contrastando o anátema de Platão aos logros dos artistas, acusados de sedutores copistas de simulacros, o Estagirita estima o humano impulso imitativo como modo lídimo de apreensão das coisas e como próprio aos misteres poéticos: épicos, líricos ou trágicos. Assim, assinala ele, será pelas veredas da mímesis que se vai à verossimilhança e esta leva à catarse pela qual a platéia partilha da purgação ensejada com a ação dramática que se orquestra em cena. Na peripécia e na laceração dos protagonistas, o espectador assimila os valores e os costumes da pólis. Quanto à téchne mesma do orador, Aristóteles divide suas partes, prescreve-lhes os recursos e indica-lhes os escopos inerentes: comover, deleitar e instruir. De profícua semeadura germina a cogitação e o debate acerca dos preceitos atinentes às artes vistas e faladas. Assim, Vitrúvio com seus dez livros De Arquitetura, Cícero, Horácio, Longino, Quintiliano e outros mentores da difícil arte das palavras constituem, com seus antecedentes gregos, as fontes nas quais se abeberam os oradores e retores que, entusiasmados com os versos de Petrarca e Dante e as tintas de Duccio e Giotto, pleiteiam a máxima restituição de vetustos primores. Destarte, emulando os engenhos da venerável Antiguidade, engendram que se restaure a decorosa dignidade para as Artes do desenho. É o erudito Leon Battista Alberti que, atento a escritos ancestrais, redige os tratados fundadores acerca Da Pintura, Da Coisa Edificatória e Da Estátua. Outros seguem a vereda aberta pelo latinista e no decorrer dos séculos XV e XVI compila-se copiosa literatura sobre preceptivas artísticas, quer na forma de analectos, quer na de elenco articulado de regramentos pelos quais se oriente a produção das obras de arte e delas se aquilatem os méritos. A perfeição que norteia a concepção e o desfrute da Arte é imago daquela que se especula no próprio cosmo se encerre. Entretanto, em fins do século XVI, facções inconciliáveis disputam com ferocidade nos âmbitos teológicos e científicos sobre questões dogmáticas e logo claudica a figuração de comedida e harmônica coreografia de esferas. Esvaída a crença na validade de pulcras cosmogonias, há que se fundar em outros alicerces as bases confiáveis da doutrina da Arte. A Criação e, nela, o Homem, os prestigiosos Autores ou mesmo a Revelação contam entre tais possíveis fundamentos, mas agora não ecoa mais voz unânime. Outrossim, então a potestade em matéria artística emana também do arbítrio do Soberano e de suas instituições e é atribuída pelos prepostos reais aos membros das Academias oficiais a incumbência de avaliar, corrigir, emendar e instituir o inteiro corpus disciplinar e normativo das Belas-Artes. No entanto, no acadêmico conclave de savants e experts não se alcança consenso e o grupo de poussinistas porfia com o de rubenistas acerca da supremacia do delineamento ou do colorido na práxis da Pintura. Traduzindo a contenda gestada na Academia Francesa (de Letras) para o campo disciplinar da Arquitetura, querelam aguerridos partidários dos antigos contra os dos modernos. Conclamando que o que se segue à perfeição há de ser decadência, os sectários dos antigos aclamam o valor de imarcescíveis paradigmas. Reclamam, contudo, os entusiastas dos modernos que o que se proclama belo não resulta de propriedade e inerência do objeto, pois belo é o que se afirma como tal e, portanto, isto é apenas um juízo e, assim, algo subjetivo. O moderno Claude Perrault professa que, a par das belezas ditas absolutas, haverá as arbitrárias, defluentes do costume e suscetíveis à idiossincrasia. Assim, concita-se o cultivo da excelência no gosto e se tematizam as idéias do sublime e do gênio. Em finais do século XVIII, Immanuel Kant assinala que o gênio é a inata disposição de ânimo (ingenium) pela qual a Natureza dá a regra à Arte. Se a sentença é tida como verdadeira, é então lícito se negligenciam as preceptivas e os romantismos apregoam a ampla autarcia para o artista. Mais, empolgando o pendão da estetização da vida, militam pela originalidade e a espontaneidade na Arte e subsumem a valia desta ao compromisso com uma vivência que seja eminentemente artística. Parece, então, iminente o esgotamento das preceptivas artísticas. O que manara em veios arcaicos desaguava enfim nos pélagos dos românticos. Contudo, passados incertos arroubos iniciais, remanescem as questões acerca da distinção (se houver) entre as altitudes da Arte e as planícies da mera coisa e os debates a respeito dos referentes para a apreciação e a valoração da obra de Arte.

Conteúdo:

Preceptivas artísticas: Platão e Aristóteles Preceito de symmetria em Arquitetura Arquitetura romana imperial. O De Architectura Vitrúvio e as seis partes da Arquitetura. A noção de mímesis na Antigüidade O De Re Aedificatoria de Alberti e o preceito de concinnitas A noção de Antigüidade e a ficção das ordens de Arquitetura Querelle des anciens e des modernes na Arquitetura Teóricos rigoristas do século XVIII: Lodoli, Memmo, Algarotti e Milizia A noção de Natureza nas Luzes e nos romantismos As visões românticas e a estetização da vida A teleologia do Novo Mundo

Forma de Avaliação:

Observação:

A avaliação será feita através de seminários e de um ensaio apresentado ao final do curso no qual se desenvolvam questões que, abrangidas nas exposições, seminários e discussões havidos, sejam também pertinentes aos projetos de tese ou dissertação dos alunos.

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