Representações da Natureza e da Cidade no Brasil

Objetivos:

Estudar representações da natureza e do espaço urbano discutindo a paisagem em uma perspectiva histórica de longa duração, a partir de ensaios sobre diferentes séries documentais selecionadas (narrativas, memórias, relatórios, artes plásticas, música, cinema, e outras fontes). Visa contribuir para o debate cultural na produção e apropriação das paisagens, pensando-as a partir das desigualdades, representações e processos.

Justificativa:

Discutindo as representações da paisagem e da cultura mobilizadas nessas sensibilidades e registros, coloca-se em questão qual visão estamos formando atualmente sobre nossas realidades e a partir de quais heranças. A disciplina analisa numa perspectiva de fundo histórico, estético e cultural registros iconográficos, verbais e textuais, em estudos acadêmicos e técnicos, criações artísticas eruditas e populares e eventos diversos, discutindo as identidades e alteridades locais e regionais no Brasil e, de modo mais particularizado, em São Paulo. Propõe a partir de aulas expositivas, de leituras, atividades de campo e pesquisas discentes críticas e criativas, um debate da cultura e da apropriação da paisagem, discutindo percepções sobre realidades brasileiras e suas contradições. As diferentes séries documentais indicadas (narrativas, memórias, relatórios, artes plásticas, música, cinema, e outras fontes) revelam visões de estrangeiros e brasileiros sobre si mesmos e os outros, suas paisagens e as “nossas”, colocando em discussão seus projetos e visões sobre a nacionalidade e o presente e, para nós, que heranças nos legam. A questão do entendimento das fontes deve assim alargar-se, incluindo em momentos mais recentes depoimentos e outras formas de pesquisa que se abrem à participação dos usuários para a construção tanto dos objetos de estudo, quanto dos sistemas interpretativos. A partir desses nossos interlocutores selecionados e suas obras, pergunta-se que representações da realidade mobilizamos, o quanto seus registros e roteiros limitam ou condicionam antecipadamente a percepção e vivência dos atores sociais em questão. A disciplina se organiza em um conjunto de quatro módulos temáticos que permitem diferentes seleções de fontes e de diferentes momentos históricos, que são contextualizados no período de sua produção e tratados como representações, abrigando pressupostos, discursos e posicionamentos entre a “presença e a ausência”, como problematizava Lefebvre em 1980, passíveis de serem pensados criticamente.

Conteúdo:

1. DO “PARAÍSO À CIDADE”: valores apreciativos da paisagem brasileira e a invenção dos trópicos. Ainda somos tropicais? 2. OLHANDO PARA O OUTRO: o olhar do viajante e do nativo sobre os homens e as paisagens em diferentes momentos de nossa história: intuições e recusas sobre o outro e si mesmo. Visões depreciativas ou enaltecedoras da diferença. 3. DISCURSOS SOBRE A MODERNIDADE: visões da natureza, da cidade e da cultura no âmbito de um projeto de modernidade no século XIX e XX no Brasil. 4. FORMAS DE RESIST?NCIA E CONFLITOS: Paisagem, subjetividade, desigualdade e práticas libertárias. Alteridades e identificações, desigualdade social e especificidades culturais.

Forma de Avaliação:

Observação:

Os alunos serão avaliados pela participação e seu desempenho em seminários programados e por elaboração de estudos intermediários e trabalho final sobre temátic Quando de seu oferecimento, para se conhecer as seleções e recortes que construirão o material expositivo e de análise na disciplina no escopo deste programa, recomenda-se consultar o plano de ensino no site http://www.espiral.fau.usp.br.

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