DA CIDADE ORGANISMO À CIDADE ESPETÁCULO:

Oxigenação, Regeneração e Espetacularização a favor da Recontextualização da área da Luz.

SOB O PONTO DE VISTA....

Desde o século XIX, a cidade é comparada com um organismo vivo, com suas áreas centrais “saudáveis”, periféricas “doentes” e suas áreas higiênicas (limítrofes), localizadas entre as duas áreas anteriores. Com o ponto de vista da cidade organismo e sob um olhar antropológico, a proposta visa policiar, diagnosticar, ajuizar e ortopedizar esta área da cidade como um todo, na pluralidade dos seus problemas. É preciso que a área tenha suas chagas completamente visíveis para que, depois, se possam centrifugar os elementos nefastos. Percorrendo os caminhos da história, enquanto na sociedade medieval, a organização da cidade excluía a diferença para além das muralhas e quando a incluía atribuía lhe o não lugar da prisão, síntese do exterior atemporal e aespacial; a sociedade moderna abriu se ao externo. Houve uma inversão do que realmente era considerável área saudável e área doente. O organismo inclui mais facilmente as deficiências sem morrer. A metáfora higiênica da cidade-organismo inscreve nesta a relação pericial análise-diagnóstico-prescrição e possibilita assim a substituição de uma legitimação da mudança urbana em função da tradição, por uma legitimação em função da prospeção, possibilitando que à exclusão da diferença se substitua a inclusão disciplinada da diferença.

“A cidade deve ser como um organismo vivo com um corpo saudável e capaz de viver com prazer e de trabalho produtivo”. Camillo Sitte

DIAGNÓSTICO

“...O que já existe deve ser retomado como experiência. É o caso dessa história de ‘reviver’ os centros. Mas por que eles devem ser revividos, se ali está a matriz, a base? O centro deveria ser a suprema experiência do êxito. E de fato é, porque ali estão concentradas as melhores instalações de água, esgoto, telefonia, transporte, etc. O centro é abandonado por uma rejeição da própria cidade, que, ao surgir é democrática.” Paulo Mendes da Rocha.

Da “genética” da região da Luz, podemos perceber que a área teve em sua formação três princípios fundamentais: a circulação de pessoas, o estabelecimento de pontos de troca comerciais e a transmissão de conhecimento. Com o “crescimento” da área, a crise cafeeira e a intensa circulação de pessoas em função do estabelecimento da estação rodoviária, podemos perceber que cada vez mais as construções se fechavam, diminuindo os laços de afinidade e afetividade do morador com o local, transformando a área num grande “corredor” de passagem, numa grande “artéria”, ramificando caminhos para os outros pontos da cidade, mais sem uma identidade específica. Os pontos “irrigados” pela circulação de pessoas, são pontos que “sobrevivem” por uma alimentação periódica, os pontos que não foram atingidos por essa circulação, estão em processo de “necrose”. Sob esse aspecto, identificamos a área onde deverá ser feita a intervenção: a triangulação existente entre a Avenida Cásper Líbero e a rua dos Andradas, tendo também como limite a linha férrea. Todas as intervenções efetuadas na região da Luz, estão caracterizadas num processo de recuperação pontual, como uma acupuntura , e esta área centralizada dentro destes pontos recuperados, necessita de oxigenação e espetacularização , para sua regeneração e integração aos órgãos adjacentes, proporcionando bem estar social à população.

Sobre a relação entre espaço arquitetônico e bem estar social

“A relação se dá a partir de uma mudança no foco de atenção, que deve estar nas pessoas, não na forma. O espaço deve ser usado para dar a idéia de mais e melhor. Nas escolas que projeto..., a ênfase não está nas classes, mais no processo de conhecimento....Isso se dá nos espaços comuns e abertos. A arquitetura já não precisa mais se preocupar tanto com a proteção das pessoas, como no passado. Ao contrário, deve estimular o encontro informal. E isso se dá justamente nos espaços comuns...” Herman Hertzberger.


Implantação da área objeto de estudo com o resumo do diagnóstico do local: A descoberta da área central sem circulação, sem atrativos, bloqueando circulações, em processo de necrose.

 

PRESCRIÇÃO
“O resultado final do projeto deve privilegiar o conforto tanto físico quanto espiritual dos usuários e incorporar às vezes um dado acidental para enriquecê-lo.” Camillo Site
O estudo foi desenvolvido, através dos conceitos abaixo:
- Preservação histórica e arquitetônica - Camillo Sitte, sobre as relações harmônicas que devem existir entre o objeto construído e os vazios que o rodeiam sendo extremamente relevantes seus
valores históricos e artísticos. E sobre a implementação de áreas verdes nas cidades.
- Quadras abertas - Christian de Portzamparc - sobre a sintetização da evolução das cidades, ele defi ne a cidade na 1ª era, onde existe a rua - o espaço público - e o espaço privado, bem
característico das cidades pré industriais, a cidade na 2ª era, onde ele defi ne a abertura dos espaços privados criando áreas mais vastas e mais distantes, num processo de demolição e reconstrução
do espaço, e por fi m a cidade na 3ª era, formada pelo remodelamento da herança existente de períodos anteriores. Sintetizando a 1ª e 2ª era, reinventando ruas, facilitando a percepção com novas perspectivas visuais, respeitando a autonomia das edifi cações, mais proporcionando maior integração entre eles, permitindo, dessa forma a coexistência entre ambos.
- Superposição de camadas e paisagens cinemáticas - Bernard Tschumi, sobre a superposição de camadas de acessibilidade, criando novos pontos de observação da área, facilitando a comunicação entre os edifícios, gerando uma nova perspectiva para a área. Integrando os edifícios culturais já existentes com novas atividades de comércio, de serviço e de residência. Trabalhando com situações mutáveis e interativas.
“O prédio Copam, em São Paulo, é um exemplo lindo de uma perspectiva de novos espaços realizados no centro da cidade. Há apartamentos de 50m2, de 100m2. Não é o pequeno que caracteriza a nobreza: você pode ser sozinho e viver muito bem num apartamento de 50m2... A parte pública deveria ser muito mais a sua casa do que esse espaçozinho, cuja imagem querem vender ao pobre como algo ideal, um índice de felicidade que deve ser perseguido.” Paulo Mendes da Rocha
A proposta trata da adequação das áreas adjacentes aos pontos de referência já existentes, criando um sistema de circulação efi ciente entre eles. Trata também da inclusão social, onde haverão eventos para todas as classes sociais e ainda de um refortalecimento da imagem do bairro, passando de Cracolândia para Luz.

1. Proposta de Implantação para a área: utilização de quadras abertas, incentivo a manifestações populares, implementação de áreas verdes e sobreposição de camadas.
2. Imagens do Parc de la Villette: Sobreposição de camadas e exploração de novas visuais, criando espaços inusitados sobre e abaixo da camada padrão. Repetição de elemento construtivo que geram integração no espaço. Na área de estudo, a proposta é que a repetição seja
dada por pontos focais luminosos, retomando o nome do bairro.
3. Imagem da regulamentação de programação visual em Barcelona, valorizaçao da edifi cação e dos estabelecimentos. Proposta também a ser implementada para a área.

 

A área planejada foi setorizada em função do serviço a ser explorado em cada quadra. Em todas as quadras existe a abertura da área interna ao lote resgatando historicamente uma menor densidade de construção e transformando essas áreas em locais de convivência, com a inclusão de um serviço base : a música, o cinema, o teatro e os serviços de multimídia, e restante dos imóveis existentes deveriam ser restaurados de forma a atender serviços e residências, com calçadas no nível do piso e acima dele. Todas as quadras abertas deverão ter espaços para agregar apresentações artísticas e manifestações populares, estimulando e promovendo a cultura popular. As empenas cegas promovidas pela abertura das quadras deverão receber projeções resgatando a identidade do local. A publicidade e a restauração dos imóveis deverão seguir os exemplos de Barcelona, ou seja padronização e valorização arquitetônica e a circulação deve ser estruturada, como no exemplo da cidade do México. Aproximação Digital e cultural às massas, disponibilizando de maneira interativa, arte e tecnologia nos pontos de encontro das quadras abertas.


1. Perspectiva artística do quarteirão da música, do teatro e do cinema com local reservado para apresentações artísticas e disposição de pontos luminosos
2. Croquis da cidade da 1a. era, mostrando a cidade com seus espaços definidos
3. e da 2a. era, identificando a ampliação da área pública, de Christian de Portzamparc
4. 3a. era: esquemas de quadras abertas.

 

 


1. Perspectiva ilustrativa do quarteirão multimídia, utilizando os conceitos de quadra aberta e de sobreposição de camadas. A cobertura ultrapassa o gabarito da quadra.
2. Perspectiva ilustrativa do quarteirão do teatro: apresentações artísticas,
3. Detalhe da perspectiva demonstrando as projeções de imagens resgatando a história e a imagem do local
4. Focos Luminosos, atraindo a população para a Luz
5. Loucas Bambozzi no Arte Cidade III - Este trabalho sugestionou as projeções nas empenas cegas das quadras abertas.

 

“Information appliances” são objetos dotados de tecnologia computacional portadores de capacidade de processamento de dados que se tornam entidades dinâmicas em sua existência no relacionamento com o ambiente e, sobretudo com o ser humano. Essa modalidade de design manifesta-se por diferentes linguagens e entre elas, neste trabalho, destacam-se a projeção de luz e imagens. Equipamentos de projeção acionados pelo recurso computacional “motion capture” de conteúdo interativo formam uma possibilidade de Arte urbana interativa onde tal interação se dá com o público transeunte em plena calçada. Personagens em animação 3D acionados por reprodução de movimentos humanos podem estabelecer formas de diálogo com as pessoas quando notadas à sua frente. Esse tipo de interação, ainda que de elevada complexidade tanto no aparato tecnológico, quanto na produção de seu conteúdo, permite sem discriminação alguma, que todas as pessoas habitantes ou não do bairro da Luz desfrutem, apreciem e participem de inúmeras produções artísticas manifestas nestes equipamentos e linguagens. Assim, a incorporação de tecnologia computacional ao design dos objetos nos possibilita valorizar e adicionar atributos, não apenas de funcionamento, mas de relacionamento, entre os objetos, o ambiente e os indivíduos”.

O que se propôs para esse trabalho foi apresentar uma abordagem particular de pesquisa em design para a relação triádica entre o espaço natural, espaço construído e o ser humano observando-se os produtos dotados de tecnologia computacional como mediadores dessa relação na sociedade contemporânea. Verificou-se nesse processo que as especializações do design como gráfico e produto, no projeto de objetos pervazados por tecnologia computacional não encontram eco. Trata-se de uma modalidade de design que aproxima, articula e produz respostas circunstancialmente materializadas para demandas também circunstancialmente percebidas ou anunciadas. Referiu-se ao ser humano, indivíduo ou grupo social, como agente determinante e original de ações de projeto de produtos e sistemas artificiais como complemento na vida. Privilegiou-se ainda a reflexão sobre uma re-qualificação das condições humanas onde expressões como portador de cuidados especiais deu lugar ao conceito de níveis de limitações. Este extensivo a todo ser humano independente de sua condição física ou psicológica. Da revolução industrial à era da informação, tem o design a incrível flexibilidade de atualização e se necessário, reformulação de seus caminhos e conceitos.” Assim, no contexto de um Bairro como a Luz e a busca por uma interação, procura-se promover uma reflexão em torno do objeto como mediador das relações entre o humano/ ambiente inferindo-lhe o caráter essencial de interface atraindo novos visitantes; colaborando para ensinamentos da população da região. Lembrando que, não nos referimos apenas a estes objetos como os responsáveis por uma melhoria do bairro, mas, em uma abordagem mais ampla, como integrantes do uso de mídias com tecnologias recentes aplicadas a um meio construído degradado e onde o designer age na busca de viabilizar tal tarefa e é interpretado como um importante recurso tecnológico com o qual se pode perceber, mapear e intervir nos níveis de limitação humana das sociedades contemporâneas.

“O desenvolvimento da vitalidade de certas áreas da cidade e também o tipo de morte e degradação sofrido por outras é bastante imprevisível. Parece acontecer em toda a grande metrópole: a contradição no sistema econômico não tem nada a ver com a arquitetura. Em Londres e outras cidades, você pode ver que há sempre um movimento de classes sociais mais altas sobre áreas antes pobres, causando a expulsão dos moradores locais. Muitas vezes é um investimento público ou uma instituição cultural que instiga esse movimento: comunidades artísticas, galerias de arte ou um museu como o Tate Modern criam um grande impacto em toda a área. Outras áreas, como Hoxton, têm sido ampliadas sem tais investimentos públicos. Em Barcelona, há esse conceito de Joan Bousquets, sobre um tipo de “câncer” ou “vírus” inoculado em áreas degradadas tentando revitalizá-las. Esse tipo de trabalho é um pouco uma aposta, claro, mas o investigador privado, precisa do investimento público para ser atraído.” Zaha Hadid e Patrick Schumacher.

BIBLIOGRAFIA

AUGÉ, Marc. Não Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. São Paulo: Editora Papirus, 1992. ASCOTT, Roy. De l’apparence à l’apparition: communication et conscience dans la cybersphère. “http://weblifac.ens.cachan.fr/ terminal/textes/arts63.html. acessado em nov. de 1998.
Le retour à la Nature II. In: Poissant, Louise. “L‘Esthétique des Arts Médiatiques”. Presses de l’Université du Québec, Québec, 1995.
BAUDRILLARD, Jean. Sim
ulacres et Simulation. Paris: Galilée, 1985.
BATTCOCK, Gregory. A Nova Arte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1975.
BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
BORDIER, Roger. L’Art moderne et l’objet. Paris: Albin Michel, 1961.
BATAILLE, Georges. La Part Maudite. Paris: Editora Minuit, 1949.
BLOOMER, Carolyn M. Principles of visual Perception. New York: Design Press, 1984.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Vol. 1 – São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CADOZ, Claude. Realidade Virtual. Trad. Paulo Goya – São Paulo : Editora Ática, 1997.
CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. São Paulo: Edusp, 1998.
PEIXOTO, Nelson Brissac. Arte / cidade : a cidade e suas histórias. Sesc São Paulo. São Paulo : Marca d’Água: SESC, 1997.
DIAFÉRIA, Lourenço . Um século de Luz. São Paulo : Scipione, 2001.
COELHO, Márcio Novaes. Projetos de intervenção no Bairro da Luz : patrimônio e cultura urbana em São Paulo. São Paulo, 2004.
GIMENES, Lourenço Urbano. Estação intermodal como gerador e regenerador de centralidades metropolitanas : uma análise do potencial da Estação da Luz em São Paulo. São Paulo, 2005.
Revista projeto e Design. 4a. bienal de arquitetura. são paulo. arco editorial ltda. n. 239
Revista Bravo. a arquitetura do caos. são paulo. d’avila editora. n. 72
Revista GA document extra. bernard tschumi. tokio. a.d.a. edita, 1997. 157p.