Das periferias autoconstruídas às dinâmicas imobiliárias: livro analisa transformações urbanas no Brasil

Publicado em 2 de junho de 2026
ADI

Das periferias autoconstruídas às dinâmicas imobiliárias: livro analisa transformações urbanas no Brasil

Publicação do INCT Produção da Casa e da Cidade revisita obra clássica dos estudos urbanos brasileiros e propõe estratégias de investigação para os desafios atuais das cidades

 

Em 1979, a pesquisadora Erminia Maricato organizou o livro “A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial” e cunhou o conceito que definiria uma geração de estudos urbanos no país: “urbanização a baixos salários”. A ideia era que, num Brasil em plena industrialização acelerada, o trabalhador urbano construía com as próprias mãos a sua moradia porque o salário não era suficiente para comprá-la no mercado. Essa autoconstrução não era apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também funcional ao capital: o modelo reduzia o custo da mão de obra e desobrigava o Estado de investir em habitação popular. As periferias sem infraestrutura, erguidas tijolo a tijolo nos fins de semana, eram o subsídio invisível da industrialização brasileira.

Quase cinquenta anos depois, quais foram as transformações na produção do espaço urbano brasileiro ao longo das últimas décadas, e que gramática analítica é capaz de entender tal fenômeno atualmente? 

Tais perguntas são o ponto de partida de “A produção da casa e da cidade no Brasil contemporâneo: novos estudos sobre autoconstrução, Estado e imobiliário”, livro coletivo do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Produção da Casa e da Cidade. A publicação reúne 42 autores e é fruto de uma rede composta por seis universidades públicas (USP, UFABC, UFRJ, UFPA, UNESP e UFMG).

O Brasil de 2026 é irreconhecível em muitos aspectos em relação àquele de 1979 e, ao mesmo tempo, bastante familiar. Ainda que o Brasil tenha se industrializado imensamente durante o século XX, atualmente a relevância da indústria de transformação é algo comparável ao país do início dos anos 1950, em termos relativos. O trabalho informal e precarizado ganhou novas formas na era das plataformas digitais: a uberização, o autoemprego e a terceirização compõem hoje uma miríade de formas de exploração.

“Como nos ensinou Wilson Cano, o tempo é um terrível reprodutor e ampliador de problemas, quando eles não são adequadamente enfrentados”, escreve no prefácio da obra a professora Maria do Livramento Miranda Clementino (INCT LabPlan/UFRN). Houve avanços reais nas condições habitacionais e na cobertura de infraestrutura urbana, com políticas redistributivas, mas a universalização do acesso à moradia e à cidade ainda não é uma realidade. E os circuitos pelos quais a riqueza é produzida e distribuída nas cidades demandam, segundo os autores, um vocabulário renovado para ser compreendido.

Renovar esse vocabulário também implica em reconhecer a diversidade do território a que ele se aplica. Num país em que 85% da população é urbana, a urbanização nunca foi um fenômeno único: metrópoles litorâneas, cidades médias do interior, frentes de expansão do agronegócio, da mineração e as infraestruturas logísticas assumiram escala e dinâmicas específicas, multiplicando centralidades e periferias num território continental.

Para investigar esse Brasil urbano e plural, estruturalmente desigual e ao mesmo tempo diverso em suas formas, a obra se organiza em quatro eixos de investigação. O primeiro discute a moradia autoconstruída e as quase sete décadas de políticas de urbanização de favelas. O segundo examina a produção estatal da moradia, o planejamento urbano e o meio ambiente, analisando políticas habitacionais e instrumentos urbanísticos. O terceiro investiga a atuação de agentes privados, a financeirização, as transformações do mercado residencial e as relações entre capital imobiliário e fenômenos macroeconômicos. O quarto discute a produção da obra seminal de 1979 em seu contexto histórico, assim como o ciclo das prefeituras democráticas entre 1980-2000. 

O processo de construção do livro é, em si mesmo, também uma contribuição. Mais de 100 pesquisadores e pesquisadoras, entre integrantes do INCT e parceiros, participaram de seminários, debates e atividades de pesquisa do Instituto. Os 42 autores e organizadores pertencem a distintas regiões e universidades do país, refletindo o esforço de articulação interinstitucional que é central ao programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) do CNPq. Para os organizadores Maria Lucia Refinetti, Luciana Royer, Estevam Otero, Jefferson Goulart, João Tonucci  e José Júlio Lima, a publicação é também uma forma de cumprir um dos objetivos centrais do programa: produzir e disseminar ciência e tecnologia sobre os desafios brasileiros.

Desejamos a todos uma boa leitura e debate!