Publicado no Boletim Rede - Coluna "Contexto Internacional", Ano III, no.31, julho de 1995
CAALL - Centro Alceu Amoroso Limapara a Liberdade, Petrópolis, RJ.


 

ONDE FOI PARAR A MAIS-VALIA ?

João Sette Whitaker Ferreira

Na era da mundialização, a moda é falar em mercados financeiros, liberalizaçiros, liberalização da economia, privatizações. A questão do trabalho, da luta do operariado, do que era chamado de “luta de classes” parece coisa do passado, como que pertencente ao tempo em que o mundo ainda se dividia em “esquerda” e “direita”. Tentaremos ver aqui se isto é de fato verdade.

A Terceira Revolução Industrial, também chamada de revolução da informática, transformou profundamente o processo de produção. As inovações tecnológicas tornaram obsoleto o modelo fordista, onde o trabalho era dividido entre muitos operários ao longo de uma cadeia de produção. Robôs  foram introduzidos em vários estágios do processo, a informática racionalizou o sistema, e a utilização de novas matérias primas eliminou etapas da produção.

Isto trouxe conseqüências na estabilidade do mercado de trabalho, pois as novas tecnologias  permitiram uma diminuição drástica na mão de obra necessária para a fabricação de um produto. Trabalhadores viram-se obrigados a inserir-se no mercado terciário, de serviços, o que exigiul;os, o que exigiu uma adaptação e uma formação que nem todos tiveram possibilidade de obter. Por outro lado, aqueles que permaneceram empregados tiveram de passar por uma peneira de qualificação, já que as novas máquinas exigiram a permanência apenas daqueles capazes de operá-las. Em países como o Brasil, carentes de educação, essa defasagem tornou-se ainda maior.

Com tudo isso o grau de desemprego em todos os países capitalistas aumentou significativamente.  Com o agravante que agora um desempregado, se ficar mais de uns meses inativo, estará impossibilitado de inserir-se novamente no mercado tal a velocidade dos avanços tecnológicos, que exigem um treinamento permanente. E para os trabalhos mais pesados, os países industrializados vêm se servindo da mão-de-obra formada pelos trabalhadores imigrantes, vindos do terceiro mundo atrás da fantasia do primeiro mundo.

O problema do desemprego se agrava ainda em função da crise estrutural profunda pela qual passa a grande maioria dos países capitalistas. Por diversas razões, que passam pelo endividamento do Estado, pelos ajustes impostos pela formaç&pela formação dos blocos monetários,  o sistema produz cada vez mais desempregados e é incapaz de mantê-los no mercado econômico. Nunca, nem na Europa, nem nos EUA, nem aqui na América Latina o chamado “desemprego estrutural” foi tão alto, chegando em muitos casos a mais de 10% da população ativa.

Em meio a tal crise, falar em “luta de classes” parece fora de moda. A grande mídia insiste em dizer que isso é coisa do passado, e que no mundo moderno a tecnologia permitiu que fosse superada a questão da “mais-valia”, que isso não passa de um discurso de uma esquerda saudosista, e que hoje o trabalhador descontente certamente é aquele que não se “adaptou” aos tempos modernos. De fato, se até os anos 70 o lucro do empresário era basicamente obtido através da exploração da mão-de-obra, hoje esse lucro se deve a fatores como a racionalização da produção, a pesquisa, o marketing, a agilidade e mobilidade nas comunicações, uma boa comercialização, um atendimento ao cliente cuidadoso, etc... As máquinas de certa forma acabam eliminando grande parte do que se chamava antes de “trabalho não pago”.,Helvetica">

Isto no entanto talvez não signifique que não exista mais a “mais-valia”. Pois em sua essência esta é o lucro obtido pelo empresário através do trabalho não pago do operário. O que ocorreu é uma mudança qualitativa da mais-valia. Hoje ela não se vê mais apenas nos baixos salários do trabalhador. Se vê no enorme contingente de desempregados, à margem do mercado de trabalho. Pois não devemos esquecer que a modernização que provocou tal desemprego foi feita com um único objetivo: aumentar ainda mais a capacidade de acumulação de capital por parte do empresariado. Se a busca pelo lucro não passa mais pela simples exploração do trabalhador, fazendo-o trabalhar mais por menos dinheiro, isso não quer dizer que ela não continue a ser possível somente em função da desgraça de muitos trabalhadores. A mais-valia certamente ainda existe. E os milhões de desempregados pelo mundo afora certamente têm algo a dizer a respeito.


 
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